segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O exílio de António Aniceto Monteiro

O exílio de António Aniceto Monteiro (*)

Jorge Rezende

António Aniceto Monteiro (1907-1980) foi a mais importante figura da década prodigiosa da matemática portuguesa dos anos 30 e 40 do século passado. Foi o primeiro secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Matemática e talvez o principal impulsionador da sua fundação. Exilou-se no Brasil no princípio de 1945.
Tanto Pereira Gomes como Valadares sabiam do que falavam. Ambos eram amigos íntimos de Monteiro, companheiros de lutas e de exílios. O primeiro fez o doutoramento sob a sua orientação e o segundo foi bolseiro em Paris na mesma altura em que Monteiro lá esteve e era seu compadre, padrinho do filho mais novo.
A partir de finais de 1936, Monteiro viveu ainda com pequenos rendimentos tais como um subsídio pago pelo IAC (cujo presidente era Celestino da Costa) como colaborador no serviço de inventariação da bibliografia científica existente em Portugal. Mas no final de 1941 ou princípio de 1942 o Ministro da Educação Nacional, Mário de Figueiredo, demitiu Celestino da Costa e em Dezembro de 1942 «dispensou» os serviços de Monteiro, isto é, despediu-o.
António Aniceto Monteiro exilou-se pois no Brasil em 1945 porque estava desempregado, não tinha meios de subsistência em Portugal, por se recusar a assinar a tal declaração de submissão ao regime político salazarista.
A principal razão que me leva a escrever este artigo é o facto de ter lido na Wikipedia, a propósito de António Aniceto Monteiro, que
«Existem duas interpretações dos motivos que o terão levado a abandonar Portugal. Uma primeira interpretação refere motivos políticos, que ele foi impedido de ter uma carreira universitária em Portugal, pois recusou-se a assinar um documento onde declarava o apoio ao salazarismo e o repúdio ao comunismo e às «ideias subversivas». Uma outra interpretação é a de que o próprio António Aniceto Monteiro deixou escrito de forma clara que abandonou o país, não por motivos ou perseguições políticas mas, por estar saturado das obstruções dos seus pares académicos.»
Para esta segunda «interpretação», a Wikipedia remete o leitor para o livro de Jorge Buescu «Matemática em Portugal, Uma Questão de Educação». De facto, foi este autor que imaginou tal «interpretação». Segundo ele, as razões que levaram Monteiro ao exílio estão num artigo do nº 10 da «Gazeta de Matemática», de Abril de 1942, páginas 25-26, «Origem e objectivo desta Secção [MOVIMENTO MATEMÁTICO]», que está reproduzido no Anexo. É aqui que, segundo a Wikipedia, Monteiro «deixou escrito de forma clara» os motivos do seu exílio.
O leitor procure na rede este artigo de Monteiro («Origem e objectivo desta Secção [MOVIMENTO MATEMÁTICO]»), ou leia-o no Anexo, e verifique se aí está explicado que foi por estar «saturado da obstrução dos co­legas» que ele «decide abandonar o País em 1943, acabando por partir pa­ra o Brasil em 1945», conforme afirma Jorge Buescu no seu livro. A verdade é que não estánão há no texto de Monteiro qualquer referência a uma intenção de se exilar.
É certo que eu já abordei este assunto nos meus artigos «Sobre as perseguições a cientistas durante o fascismo» (Revista «Vértice», 166) e «António Aniceto Monteiro – lutas, perseguições e exílios» («Boletim» da Sociedade Portuguesa de Matemática, 74). Mas também é verdade que continuam a alastrar na rede citações da referida «interpretação», devido à projecção mediática do seu autor. É, por exemplo, o caso da versão inglesa da entrada sobre António Aniceto Monteiro na Wikipedia.
Este falseamento da História é tanto mais estranho quanto o seu autor tem escrito vários artigos de opinião (nomeadamente, no jornal «Público») onde tem proclamado ser um acérrimo defensor «do conhecimento, do rigor e da exigência».
Pois em nome do conhecimento, do rigor e da exigência já é mais do que tempo de ser reparado este mal que foi feito.


ANEXO

Origem e objectivo desta Secção

Pensou-se há algum tempo em publicar um jornal — que teria por título Movimento Matemático — des­tinado a lançar uma campanha para uma reforma dos estudos matemáticos em Portugal e a fazer a pro­paganda das principais correntes do movimento ma­temático moderno.
Parece-me evidente a necessidade de publicar um tal jornal precisamente porque o nosso país anda longe das correntes vitais do pensamento matemá­tico moderno e porque o nosso ensino das ciências matemáticas necessita de uma remodelação completa: remodelação dos programas de estudo, da organiza­ção da licenciatura em Ciências Matemáticas, da pre­paração dos professores do ensino secundário, das provas de doutoramento e dos métodos de recrutamento do pessoal docente universitário.
É indiscutível que assistimos hoje no nosso país a uma verdadeira efervescência de actividade no campo das ciências matemáticas. Demonstram esta afirma­ção o aparecimento sucessivo no curto prazo de cinco anos de 1.º) Portugaliae Mathematica, fundada em 1937; 2.º) Seminário Matemático de Lisboa (1938) que toma em Novembro de 1939 o nome de Seminá­rio de Análise Geral; 3.º) Centro de Estudos de Ma­temáticas Aplicadas à Economia, fundado pelo 1.º Grupo do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (1938); 4.º) Gazeta de Matemática, Ja­neiro de 1939; 5.º) Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa, fundado pelo Instituto para a Alta Cul­tura em Fevereiro de 1940; 6.º) Sociedade Portu­guesa de Matemática, Dezembro de 1940; 7.º) Centro de Estudos Matemáticos do Porto, fundado pelo Instituto para a Alta Cultura em Fevereiro de 1942.
Anuncia-se para breve a publicação do Boletim da Sociedade Portuguesa de Matemática, das Publica­ções da Secção de Matemática da Faculdade de Ciências do Porto e de uma colecção de Estudos de Matemática; projecta-se a criação de um Estúdio de Matemática em Lisboa.
Todas estas organizações e publicações trabalham por um ressurgimento da cultura matemática portu­guesa!
Se tudo isto é muito animador e nos permite ter esperanças num triunfo mais ou menos próximo, não devemos ter ilusões de espécie alguma sobre as dificuldades que nos esperam!
Há que contar — isto é de todos os tempos! — com um recrudescimento da hostilidade da ignorância e da má fé; da hostilidade daqueles para quem a estagnação ou a decadência da nossa cultura matemá­tica é a condição necessária para a realização de objectivos que nada têm que ver com as ciências ma­temáticas, daqueles que tremem perante a ideia da existência de uma juventude estudiosa consagrando inteiramente a sua vida e o seu entusiasmo a uma causa pela qual eles nunca lutaram — porque o es­forço e a diligência no estudo revelam de uma ma­neira evidente os erros do passado e as deficiências do presente —, da má-fé daqueles que apregoam um interesse e um entusiasmo pelo desenvolvimento da cultura matemática que são desmentidos categoricamente pela sua actuação presente, da má-fé daqueles que consideram como revelações de inteligência e de capacidade a adoração da rotina que o uso consa­grou e de que eles são por vezes os mais legítimos representantes; há que contar ainda com a ignorância (e que enciclopédica ignorância!) daqueles que afirmam que o nosso país está perfeitissimamente ao corrente do movimento matemático moderno, que o nível dos nossos estudos matemáticos se pode por a par do dos países mais avançados, e finalmente há que contar com a indiferença (que estranha e có­moda indiferença!) daqueles que dizem que no nosso país não há nada a fazer, que os portugueses são in­capazes de realizar um esforço persistente e conti­nuado e que portanto são incapazes de contribuir para o progresso das ciências matemáticas!
Pensamos que o aparecimento destas manifesta­ções deve servir apenas para nos indicar que se­guimos pelo bom caminho — porque a cada tarefa realizada a reacção deve aumentar — e que nunca devemos desviar a nossa atenção do trabalho me­tódico e persistente para controvérsias de carácter duvidoso.
É precisamente pelo estudo, pelo trabalho de in­vestigação e pela propaganda das matemáticas, que se pode preparar o ressurgimento dos estudos matemáticos em Portugal, mas importa evidentemente orientar a nossa actuação pelas lições que nos são dadas pela nossa experiência e pela experiência das outras nações. Há que definir um rumo, e segui-lo enquanto a experiência mostrar que estamos no bom caminho!
O desenvolvimento rápido da Gazeta de Matemática — em particular a partir do início do presente ano lectivo — tornou possível o alargamento imediato da sua acção cultural e daí nasceu a ideia — para evitar uma dispersão de esforços que o momento actual não permite — de criar na Gazeta uma secção em que se desenvolveria a pouco e pouco o plano de acção que se pretendia realizar no Movimento Mate­mático. É esta a origem desta secção que se iniciou no n.º 9 da Gazeta.
Infelizmente a situação actual da Gazeta não per­mite ainda dar a esta secção todo o desenvolvimento que era necessário. Por isso temos que nos limitar a assinalar aos leitores deste número as realizações e iniciativas de valor cultural sob o ponto de vista matemático de que temos conhecimento. Esperamos que em breve seja possível, por meio da colaboração efectiva de todas as pessoas interessadas no desenvolvimento da cultura matemática, lançar uma cam­panha para uma reforma dos estudos matemáticos em Portugal e fazer a propaganda das principais cor­rentes do movimento matemático moderno.
ANTÓNIO MONTEIRO

(*) Artigo publicado originalmente no blogue «